Mesmo quando parece fácil, não o é
Mesmo quando está lá, não está
Quando a vitória está ao alcance e a deixamos escapar
É frustrante
Mas sabe bem
Pois voltamos a tentar
Com mais e mais e mais afinco
E a cada falhanço
Persistimos
Incessantemente
Até ao fim
Até à morte
É preciso imaginar Sísifo feliz
sábado, 15 de setembro de 2007
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
Autocarro
Júlio Salgueiro trabalha numa empresa de seguros. Todos os dias apanha o 37, que pára em frente da sua residência, e o conduz directamente ao escritório, parando entretanto em 7 paragens, separadas entre si por 500 metros, mais milímetro menos milímetro. Invariavelmente, Júlio sai de casa às 8 menos um quarto, após ter beijado a sua mulher e abraçado os seus filhos. Júlio já alcançou grande parte dos seus objectivos. Pertence ao quadro superior da empresa, é uma pessoa sociável e amistosa. Tem um agregado familiar coeso, onde o amor não dá falta de comparência. Tem também a casa e o carro pagos, objectivo máximo de qualquer cidadão do séc. XXI.
Num rotineiro dia, Júlio sai de casa às 8 menos um quarto. Como sempre. Para seu espanto, a senhora idosa, que vive na casa em frente da sua, cuja paixão por gatos é de todos conhecida, não se encontra lá, sentada como hábito. Subitamente, Júlio sente uma estranha sensação de vazio. "Terá a velha senhora morrido?" - pergunta-se Júlio em voz alta. Como era uma invernosa manhã de nevoeiro, não se via vivalma. Após isto, olha para o seu relógio de prata, impecavelmente polido, e repara que já são 8 menos 5. por esta hora, o autocarro já deveria ter passado. Este invulgar atraso incomoda Júlio, pois esperar pelo próximo compromete o seu café da manhã com seu colega Dinis, que habitualmente o espera às 8 e 30 em ponto, em frente ao "Café da Vila", situado em fronte do bloco de arranha-céus onde está situado o escritório de Júlio.
Ele toma uma decisão. Não vai esperar mais, vai a pé até à próxima paragem, assim poupa tempo, e dá alguma distracção às pernas. Júlio segue o seu caminho, continuando a não ver vivalma, exceptuando alguns cantos vespertinos de pequenos pássaros. Mas eis que Júlio chega à paragem seguinte. Nada de gente, nada de autocarro. Júlio fica inquieto. Tem um bilhete mensal e não pretende abdicar da sua utilização nem por um dia. Todavia, segue o seu caminho, em direcção à 3ª paragem. Aquando da chegada de Júlio à referida, o ponteiro do relógio assinala 8 e um quarto, hora pela qual deveria estar a chegar ao escritório, pois a viagem de autocarro tem apenas a duração de 10 minutos. Júlio sente-se verdadeiramente inquieto. Hoje será um dia crucial para a sua promoção. "Mas porque é que o autocarro não vem? Porque é que não há ninguém na rua?" Júlio segue a pé, em passo já acelerado, passa pela 4ª paregem, não pára, e segue até à quinta. Por esta altura, Júlio está sem ideias, vagueia amorfo, sem cessar, sem caminho que o guie, a não ser uma pequena linha, lado-a-lado com outra linha, que Júlio queria alcançar e deixar-se levar por ela, mas não conseguia, pois esta era muito rápida e Júlio não tinhas os meios necessários. "Do que é que estou à espera afinal? Ah, sim, a minha mulher está grávida... Não, raios, estou à espera do autocarro!" Embrenhado nesta ideia, Júlio chega finalmente à 6ª paragem, a última antes do seu escritório. Completamente desorientado, são agora 8 e 35, ele tem uma crucial apresentação às 9 e meia, que será decisiva para a sua promoção. Mas Júlio não pensa nisso, Júlio pensa unicamente no autocarro, no autocarro que já aqui devia estar, já devia ter passado, mas não passou. "Porquê? Que mal fiz eu? Onde falhei? Sempre segui o caminho certo, nunca me desviei, porque não sou eu recompensado pela bonança?" Ei-lo que surge, ao fundo lá no fundo, o tão desejado 37. Desesperado como está, Júlio corre a apanhá-lo, pica o seu bilhete mensal, e senta-se na 1ª fila. Envolto em pensamentos tenebrosos, Júlio passa por uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete paragens. Está mecanicamente acostumado a sair na sétima. Sai, e sem saber bem porquê, colhe uma flor e larga-a em fronte da porta castanha, que tinha um estranho cheiro a salmão enlatado.
Júlio atravessa a rua, e vê ao longe chegar o 37. Como sempre, espera pacientemente que o autocarro trave completamente, até que as luzes de travagem se desliguem, e instintivemente vai atrás do sinal sonoro que assinala a abertura das portas. Senta-se no seu lugar favorito, à janela. Ao chegar à sétima paragem, olha para o outro lado da rua, e não vê Dinis à sua espera. Não estranha tal facto, pois não é a 1ª vez que acontece. Entra em seguida no seu escritório e acende as luzes como habitualmente, feliz por iniciar mais uma jornada de trabalho.
Cá fora, o relógio da Igreja dá nove badaladas. Dinis abre a porta e entra com ar pesaroso, envergando um blazer negro, algo pouco habitual naquela empresa.
Júlio foi apenas mais uma vítima do absurdo.
Num rotineiro dia, Júlio sai de casa às 8 menos um quarto. Como sempre. Para seu espanto, a senhora idosa, que vive na casa em frente da sua, cuja paixão por gatos é de todos conhecida, não se encontra lá, sentada como hábito. Subitamente, Júlio sente uma estranha sensação de vazio. "Terá a velha senhora morrido?" - pergunta-se Júlio em voz alta. Como era uma invernosa manhã de nevoeiro, não se via vivalma. Após isto, olha para o seu relógio de prata, impecavelmente polido, e repara que já são 8 menos 5. por esta hora, o autocarro já deveria ter passado. Este invulgar atraso incomoda Júlio, pois esperar pelo próximo compromete o seu café da manhã com seu colega Dinis, que habitualmente o espera às 8 e 30 em ponto, em frente ao "Café da Vila", situado em fronte do bloco de arranha-céus onde está situado o escritório de Júlio.
Ele toma uma decisão. Não vai esperar mais, vai a pé até à próxima paragem, assim poupa tempo, e dá alguma distracção às pernas. Júlio segue o seu caminho, continuando a não ver vivalma, exceptuando alguns cantos vespertinos de pequenos pássaros. Mas eis que Júlio chega à paragem seguinte. Nada de gente, nada de autocarro. Júlio fica inquieto. Tem um bilhete mensal e não pretende abdicar da sua utilização nem por um dia. Todavia, segue o seu caminho, em direcção à 3ª paragem. Aquando da chegada de Júlio à referida, o ponteiro do relógio assinala 8 e um quarto, hora pela qual deveria estar a chegar ao escritório, pois a viagem de autocarro tem apenas a duração de 10 minutos. Júlio sente-se verdadeiramente inquieto. Hoje será um dia crucial para a sua promoção. "Mas porque é que o autocarro não vem? Porque é que não há ninguém na rua?" Júlio segue a pé, em passo já acelerado, passa pela 4ª paregem, não pára, e segue até à quinta. Por esta altura, Júlio está sem ideias, vagueia amorfo, sem cessar, sem caminho que o guie, a não ser uma pequena linha, lado-a-lado com outra linha, que Júlio queria alcançar e deixar-se levar por ela, mas não conseguia, pois esta era muito rápida e Júlio não tinhas os meios necessários. "Do que é que estou à espera afinal? Ah, sim, a minha mulher está grávida... Não, raios, estou à espera do autocarro!" Embrenhado nesta ideia, Júlio chega finalmente à 6ª paragem, a última antes do seu escritório. Completamente desorientado, são agora 8 e 35, ele tem uma crucial apresentação às 9 e meia, que será decisiva para a sua promoção. Mas Júlio não pensa nisso, Júlio pensa unicamente no autocarro, no autocarro que já aqui devia estar, já devia ter passado, mas não passou. "Porquê? Que mal fiz eu? Onde falhei? Sempre segui o caminho certo, nunca me desviei, porque não sou eu recompensado pela bonança?" Ei-lo que surge, ao fundo lá no fundo, o tão desejado 37. Desesperado como está, Júlio corre a apanhá-lo, pica o seu bilhete mensal, e senta-se na 1ª fila. Envolto em pensamentos tenebrosos, Júlio passa por uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete paragens. Está mecanicamente acostumado a sair na sétima. Sai, e sem saber bem porquê, colhe uma flor e larga-a em fronte da porta castanha, que tinha um estranho cheiro a salmão enlatado.
Júlio atravessa a rua, e vê ao longe chegar o 37. Como sempre, espera pacientemente que o autocarro trave completamente, até que as luzes de travagem se desliguem, e instintivemente vai atrás do sinal sonoro que assinala a abertura das portas. Senta-se no seu lugar favorito, à janela. Ao chegar à sétima paragem, olha para o outro lado da rua, e não vê Dinis à sua espera. Não estranha tal facto, pois não é a 1ª vez que acontece. Entra em seguida no seu escritório e acende as luzes como habitualmente, feliz por iniciar mais uma jornada de trabalho.
Cá fora, o relógio da Igreja dá nove badaladas. Dinis abre a porta e entra com ar pesaroso, envergando um blazer negro, algo pouco habitual naquela empresa.
Júlio foi apenas mais uma vítima do absurdo.
quarta-feira, 12 de setembro de 2007
Sonho
A ti, Nástenka, que começas com o crepúsculo e terminas na alvorada.
A ti, que me reparas, me untas com o teu sopro agreste, com esse teu sussurro ameno que me conforta e dá vida.
Pouco mais tenho para te dizer, pois é tarde, e as estrelas já não brilham.
Só quero sentir o teu calor amanhã, e depois, e depois, outra e outra vez, numa espiral ascendente de contínuas repeticões que se sucedem sucessivamente sem cessar.´
É sempre bom ter-te aqui, sabes. O problema é que tu não vens.
Deus morreu. O romance morreu.
Só o sonho fica. Só ele pode ficar.
A ti, que me reparas, me untas com o teu sopro agreste, com esse teu sussurro ameno que me conforta e dá vida.
Pouco mais tenho para te dizer, pois é tarde, e as estrelas já não brilham.
Só quero sentir o teu calor amanhã, e depois, e depois, outra e outra vez, numa espiral ascendente de contínuas repeticões que se sucedem sucessivamente sem cessar.´
É sempre bom ter-te aqui, sabes. O problema é que tu não vens.
Deus morreu. O romance morreu.
Só o sonho fica. Só ele pode ficar.
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